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Mestra em Letras!

A experiência do mestrado foi, sem dúvida, uma das mais intensas da minha vida até o momento. Envolvi-me não somente com a pesquisa, como é exigido para a pós-graduação, mas também com o ensino na graduação e com a extensão universitária. Tudo isso sem deixar de participar dos grupos de pesquisa da USP, dos trabalhos de preparação e revisão de livros e do ensino do francês na Aliança Francesa. 

O que considero de fundamental importância no meu percurso acadêmico, sobretudo na USP, foram as pessoas que eu conheci:

- as que convivi mais intimamente e que se tornaram grandes amigos;

- as que me procuraram nos intervalos dos congressos para trocar uma ideia sobre nossos temas de pesquisa;
 
- as que passaram os intervalos comigo no café da Tia Bia;

- as que trabalharam comigo, dentro e fora da USP;

- as que me acolheram em São Paulo.

Elas eram colegas de curso, professores e alunos de graduação. Eram as pessoas que marcavam comigo viagens para congressos, saídas, reuniões. Todas e cada uma delas afastou os desafios de se fazer pesquisa. A todas e a cada uma delas, eu dedico o texto a seguir, que preparei para a minha defesa, ocorrida no dia 04 de dezembro de 2020. 



***

Boa tarde! Gostaria começar agradecendo a presença de todos vocês que, em uma sexta-feira à tarde, decidiram assistir à minha defesa. Estou muito feliz de vê-los por aqui.

Gostaria de começar minha apresentação com um desabafo e com uma reflexão. Durante os dois últimos anos, eu fui, em alguns momentos, duramente questionada sobre o porquê de pesquisar literatura, especialmente francesa. Eu mesma comecei a me fazer essa pergunta. Qual a importância de ser pesquisadora na área de literatura? Encontrei em Cesare Pavese, que nem é francês, a resposta, que apresento como epígrafe da minha dissertação. Traduzo do italiano para vocês: 

 

“Tinha já naquela época olhos penetrantes, de gato, e quando dizia alguma coisa, terminava: ‘Se estiver errado, me corrija’. Foi assim que comecei a entender que não se fala somente por falar, para dizer ‘fiz isso’ ‘fiz aquilo’ ‘comi e bebi’, mas se fala para se ter uma ideia, para entender como anda este mundo. Não havia pensado nisso antes.”

 

Assim como Antonio Candido afirma, a literatura é um direito: 

 

“a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. [...] ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. [...] assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura.”

 

Por fim, trago uma citação de Michel Butor:

 

 “não se faz ciência somente com laboratórios, mas com a linguagem” 


A literatura produzida em língua estrangeira, com auxílio da tradução e das pesquisas em literatura estrangeira publicada em português, como o caso do trabalho de muitos de nós, faz com que exerçamos o direto à literatura e ao estudo científico da linguagem. Tornamo-nos porta-vozes de formas de se ver o mundo para além da nossa cultura e época.

 

Em 2011, durante o segundo semestre, eu cursava a disciplina de Literatura Francesa do século XX, com a Professora Márcia Arbex, a quem agradeço imensamente pela presença aqui hoje. Na época, a Márcia organizava o Colóquio Internacional Universo Butor, e já havia me convidado para ser monitora do evento, quando nos informou que iríamos estudar alguns trechos de obras do Michel Butor. Naquele instante, eu senti que algo de inédito estava para acontecer na minha vida: eu iria conhecer um escritor francês. E não só: eu senti, enquanto leitora e estudante de Letras, que eu tinha um poder em mãos (eu poderia matar algumas aulas da Márcia sobre o Michel Butor, para não me deixar afetar pela teoria, e conhecer a pessoa Michel Butor sem a aura de escritor). E foi o que eu fiz. Peço desculpas à Márcia pela revelação.

 

Gostaria de destacar um aspecto que considero de grande importância na vida acadêmica e que foi fundamental para a minha pesquisa: a troca e a construção compartilhada do conhecimento

 

A pesquisa em si é solitária, um trabalho individual, mas que é feito a partir do encontro e do compartilhamento. Com a minha pesquisa foi assim. Destaco, portanto, a importância da vivência do presencial. Sempre digo que a pós-graduação acontece no intervalo para o café, ou no quiosque da Tia Bia, no início ou no final das aulas, quando nos aproximamos de um colega ou dos próprios professores para conversar. Foi dessa vivência do presencial, do contato constante com professores, colegas de cursos e demais pesquisadores, em eventos acadêmicos, que repensei diversos pontos do meu trabalho, o que justifica a mudança entre o texto do exame de qualificação e esta dissertação. 

 

Retomando a minha fala anterior sobre meu encontro com Michel Butor, eu não poderia ter saído mais encantada da pessoa que conheci nele. Para mim, era um privilégio conhecer sua pessoa mais do que a sua própria obra, ter tomado umas caipirinhas com ele, ele ter feito piadas comigo e termos compartilhado muitas risadas. Mas, ao entrar no mestrado, eu me vi numa encruzilhada, pois existe um rigor para se fazer pesquisa acadêmica e essas questões pessoais podem comprometer o trabalho.

 

Como, então, eu poderia me aproximar do Michel Butor escritor?

 

A minha pesquisa se deu no encontro. O primeiro deles foi com os membros do grupo da Claudia, o Criação & Crítica, representado aqui hoje pela Professora Gisela Bergonzoni, a quem agradeço muito pela presença.

 

Em seguida, veio o encontro com o Fillipe Mauro e com o Professor Alexandre Bebiano, que me convidaram para apresentar uma conferência no Laboratório do Manuscrito Literário, no dia 14 de setembro de 2018. O dia no meu aniversário e também do aniversário do Michel Butor. Naquele momento, eu nem havia pensado em relacionar minha pesquisa com a obra de Proust. Ao me preparar para a ocasião, encontrei a primeira entrevista literária, de 1963: As lições de Proust segundo Michel Butor. Em seguida, ainda me preparando para essa palestra, descobri a segunda entrevista literária, de 2013, para o programa À double titre. Cinquenta anos entre uma entrevista e outra e vários pontos em comum. O que seria aquilo?

 

Eu havia, enfim, encontrado um meio de me aproximar do escritor Michel Butor pela via da pesquisa. As entrevistas literárias (e as análises linguísticas dessas entrevistas que eu realizei) me possibilitaram pesquisar o autor na academia. 

 

Os demais encontros da pós-graduação ocorreram nas salas de aula e nos congressos.

 

Naquela época, segundo semestre de 2018, eu estava cursando a disciplina de Discurso, Retórica e Argumentação. Foi quando, em conversa de corredor com a Professora Zilda Aquino, apresentei a ela as minhas descobertas das entrevistas literárias e ela recomendou fortemente que eu continuasse com as minhas análises, pois ela acreditava que era um estudo inédito (estudar a imagem de um escritor ao longo de cinquenta anos e verificar o que se mantinha ou não dessa imagem que ele criava de si mesmo). Graças ao incentivo da Professora Zilda, eu continuei com a análise das entrevistas e precisei me aprofundar nos estudos do ethos e da argumentação. 

 

Os Professores Roberto Zular, André Goldfeder e Fábio Lucas, que agradeço imensamente por estar aqui hoje, foram os três grandes responsáveis por me fazer criar a ponte entre os estudos linguísticos e os estudos literários. Motivada por nossas discussões acerca da Voz ao longo de três disciplinas da pós-graduação, eu passei da investigação da voz de Michel Butor, em suas obras e nas entrevistas literárias, para a descoberta da minha própria voz na academia. Deles, eu constantemente recebi a gentileza de suas palavras e a dedicação de seus tempos para refletirem junto comigo. 

 

O Professor Maurício Ayer me fez aproximar minha vivência de 20 anos de canto coral, como soprano, da prática de leitura em voz alta em grupo. Graças a ele, eu pude, enfim, ter consciência de ser eu também uma habitante da fronteira entre literatura e outras artes.

 

A minha orientadora, Professora Claudia Pino, em meio a tantas referências e possibilidades de caminhos para a minha pesquisa, me trouxe mais uma: a crítica genética. Mas a principal contribuição da Claudia foi a de me dar asas para voar, me permitir ter liberdade de trabalhar e de alçar meus próprios voos. Sem ela, não estaria hoje concluindo esta etapa tão importante da minha vida. Sem ela, eu não teria explorado a minha própria fronteira.

 

A partir de todos os encontros que a USP me proporcionou, de todas as trocas, com o auxílio de tantos outros colegas e pesquisadores, considero que Michel Butor e eu construímos, juntos, esta dissertação, que pode ser comparada a um prédio, a um edifício de três andares (sem contar o térreo, porque aqui em São Paulo não se conta o térreo como andar):

 

§  Cada andar é um capítulo. 

§  Temos, então, o térreo (que chamei de capítulo zero): nesse espaço em comum entre os capítulos, eu apresento as discussões acerca das entrevistas literárias e a forma de análise de entrevistas orais.

§  o capítulo 1: eu analiso as influências da obra de Proust na criação romanesca de Michel Butor, dentre elas a relação da literatura com a pintura e com a música.

§  o capítulo 2: eu analiso o que Butor mantém e o que ele modifica da sua imagem de escritor entre a entrevista de 63 e a de 2013. 

§  e o capítulo 3: eu analiso como Michel Butor ficcionaliza a própria imagem de escritor em um filme produzido sobre ele. 

§  O nome do meu edifício: Michel Butor e a parole em cores

§  O endereço: das entrevistas literárias à criação

 

Mantive “parole” em francês para conservar os seus vários significados. E Michel Butor parece explorar todos eles em suas obras: fala, discurso, palavra, expressão, pensamento expresso em voz alta. No plural, “paroles” significa também letra de música. Aos 20 anos, Michel Butor queria ser músico e pintor. Dentre essas opções, ele foi fazer literatura. Em sua obra literária, ele afirma, há muito de música e há muito de pintura. 

 

Destaco como pontos principais dessa imagem do escritor, que se manteve inalterada nessas cinco décadas: 

 

§  a sua imagem de escritor de fronteira (entre literatura, música e pintura)

§  o seu fazer literário, que parte da leitura, passando pelo estudo das obras literárias de outros escritores, chegando, por fim, na experimentação literária butoriana.

 

Depois de analisar as duas entrevistas, eu busquei verificar o que havia nas obras literárias de Michel Butor e que correspondiam ao que era dito nas entrevistas. A essas análises, eu dei o nome de “parole” em cores, como referência à relação do escritor com a pintura e com a música. 

 

Há muito ainda a ser feito e pesquisado. O mestrado foi só o primeiro passo. As obras completas de Michel Butor somam doze volumes, mais de 15 mil páginas. Só por esses números vocês conseguem ter uma ideia da imensidão do trabalho do escritor. Ele criou todo um universo. E não só: para mim, Michel Butor criou também a possibilidade de habitar (e de me sentir realizada) na fronteira. A minha ainda é entre a literatura e a linguística. Incluo também as outras artes, o ensino e a pesquisa, o confinamento para a criação e o reencontro para o compartilhamento.

 

Agradeço mais uma vez aos membros da banca e a todos que puderam estar aqui hoje. Muito obrigada!




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